Petroleiros denunciam aumento da perseguição a sindicalistas no governo de Bolsonaro

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“Tomei uma demissão de justa causa com a alegação de que dar comida no meio de uma pandemia é crime”. A fala é de Alessandro Trindade, 44 anos, diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF) demitido da Petrobras, no início de junho, após realizar uma ação de distribuição de alimentos em um acampamento montado em um terreno da estatal em Itaguaí, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

 

O envolvimento de Alessandro em ações de solidariedade como essa teve início na pandemia, em março do ano passado. O petroleiro de 44 anos e a sua esposa começaram a distribuir quentinhas para as pessoas em situação de vulnerabilidade social no bairro onde mora, em Padre Miguel, na zona oeste da capital fluminense.

 

A iniciativa, que começou com a distribuição de cerca de seis quentinhas na região, ganhou o apoio de outros trabalhadores do polo da Petrobras na Bacia de Campos, localidade em que Alessandro atua como sindicalista. Em pouco tempo, cerca de 600 quentinhas passaram a ser distribuídas. 

 

Meses depois, em julho, a campanha ganhou o nome de “Petroleiro Solidário” e Alessandro passou a distribuir cestas básicas para as comunidades da Selvinha, da Vila Vintém e na ocupação Porta do Céu, todas no bairro de Padre Miguel. 

 

“Começamos indo na comunidade aos sábados e domingos, primeiro eu comecei a ir na comunidade da Selvinha, em Padre Miguel. Passei a distribuir cesta [básica], procurava as casas humildes, fazia um cadastro para saber quantos filhos tinham. Eu chegava em casa, fazia uma consulta no Portal da Transparência e atendia aquelas famílias de acordo com o grau de pobreza, priorizando as famílias com a menor renda e o maior número de crianças”, conta o petroleiro.

 

Ao longo de 15 meses, a campanha distribuiu 4,5 mil cestas básicas e 80 toneladas de alimentos para pessoas em condição de pobreza e extrema pobreza no Rio de Janeiro e em outros municípios.

 

A demissão

 

O episódio que culminou com a demissão por justa causa de Alessandro ocorreu no dia 1° de maio. Um amigo ligou para o petroleiro perguntando se ele poderia realizar a distribuição de cestas básicas em uma ocupação que estava ocorrendo no município de Itaguaí. Alessandro conta que prontamente se dispôs a ir até o local.

 

“Carreguei as cestas [básicas] no carro, me dirigi à Itaguaí. Cheguei lá umas 10h, entrei no terreno fiz a entrega das cestas e vim embora. De lá para cá, minha vida virou um caos. Após fazer a entrega, fui abordado por policiais, de forma não muito educada. Eles me perguntaram se eu poderia me identificar e me identifiquei. Perguntaram se eu era funcionário da empresa [Petrobras], disse que sim. Se eu era líder [do acampamento], disse que não que só fui fazer uma ação social, levar comida e estava indo embora”, relata. 

 

Segundo Alessandro, após a abordagem policial, a situação não parou de se agravar, havendo interceptação da Polícia Federal e do setor de inteligência da Petrobras culminando, por fim, com a sua demissão no dia 2 de junho.

 

“Armam uma cama de gato, alguém da Petrobras tirou uma foto minha e saiu uma matéria como se eu fosse o líder da ocupação e a empresa me taxou de responsável por invadir o terreno às 4h da manhã e colocar as 100 famílias lá dentro. Depois do dia 1° de maio nunca mais voltei lá”, afirma ao Brasil de Fato.

 

“Perdi um sonho”

 

O mandato de Alessandro à frente do Sindipetro-NF vai até outubro de 2023. Por conta do vínculo sindical, o processo de demissão do petroleiro precisa ser judicializado. O acampamento hoje já possui cerca de 3,2 mil famílias e a liderança do local, que se identifica como Eric Vermelho, já se dispôs a testemunhar a favor do petroleiro comprovando que ele não possui ligação com a ocupação.

 

Enquanto aguarda a decisão final do seu caso, Alessandro teve benefícios da Petrobras cortados. Atualmente, o sindicato arca com as despesas de Alessandro e sua família.

 

“Eu não tenho acesso a mais nada do sistema Petrobras, não consigo logar na rede, meu crachá não funciona e o sindicato está dando todo um amparo jurídico, financeiro e de saúde. O auxílio educacional dos meus filhos, tudo está sendo pago pelo sindicato”, destaca. 

 

Apesar do transtorno, o petroleiro tem esperança de que possa ser reintegrado à empresa após acionar a Justiça. “Tenho certeza que nenhum juiz mantém a demissão de uma pessoa que vai fazer ação solidária”, diz.

 

O que diz a Petrobras?

 

O Brasil de Fato procurou a assessoria da Petrobras para um posicionamento sobre o caso do sindicalista. Por meio de nota, a empresa disse que “a Petrobras reconhece a importância da atividade sindical, a qual, no entanto, deve ser exercida dentro dos limites e objetivos legais, o que não afasta os deveres e obrigações que o empregado, mesmo enquanto dirigente sindical, deve observar em relação ao seu empregador”.

 

Segundo a empresa, “considerando os fatos e circunstâncias evidenciados, a companhia adotou as medidas que lhe competia cumprindo rigorosamente os ditames legais e normativos. Sobre o caso específico de Alessandro, a questão foi judicializada e, por essa razão, a Petrobras se reserva o direito de não comentar”.

 

Com relação ao acampamento, a Petrobras afirma que “o Superior Tribunal de Justiça (STJ) expediu em 2 de junho uma liminar de reintegração de posse do terreno no município de Itaguaí em favor da Petrobras”. De acordo com a nota, “a companhia está tomando as providências para que ocorra o cumprimento da liminar e espera que as pessoas deixem o local de forma pacífica em respeito à decisão da justiça”.

 

Na mira do sindicalismo

 

Além de Alessandro, recentemente o coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, também recebeu uma punição disciplinar com suspensão de 29 dias por meio da Gerência Geral da Refinaria Landulpho Alves (Rlam). A medida foi derrubada no dia sete de junho pelo Tribunal Regional doTrabalho da 5ª Região (32ª vara de Salvador, na Bahia), assegurando que Deyvid exerça sua atividade sindical, sem interferências da empresa.

 

Na avaliação de Bacelar, o governo Bolsonaro tem perseguido dirigentes sindicais de forma recorrente, mas as sanções tem causado um efeito reverso na categoria.

 

“Cada ato antisindical que a gestão da Petrobras promove gera mais indignação nas direções e nas própria categoria. Isso demonstra que não conseguirão calar a nossa voz e nos intimidar. A categoria sempre teve o histórico de vanguarda junto a classe trabalhadora brasileira e não perderá essa característica apesar dos ataques do governo Bolsonaro das privatizações”, afirmou ao Brasil de Fato.

 

 

Fonte:   Jaqueline Deister, do Brasil de Fato – 29/06/2021

 

 

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